segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A última vez.


Pra mim era a última vez, e eu aproveitei.
Eu te senti, eu me preparei, eu te guardei. Na verdade você pegou no sono antes de mim, eu te olhei. Faltavam quarenta dias, depois faltaram trinta, vinte e agora entendi o porquê de tanta contagem. Eu nunca tinha parado para pensar que ter apenas seis dias poderia ser tão agoniante, eu não tinha pensado que o doce tirado de uma criança é mais fácil do que tirar o seu corpo de perto de mim. Porque você não tem só açúcar, você tem sal, tem suor, tem tato, você tem pele, tem gosto e tem cheiro. É, eu entendi o que eu quis, e eu ali entendi as minhas limitações. Hoje tudo mudou, não sei quando será a última vez e quando irão tirar o doce de mim, mas com certeza essa hora já está pra chegar.

Íris Pietro.

Deusa

A luz parca que entrava pela porta do quarto, vinda da lua cheia que iluminava a escancarada janela da sala, além da ponta em brasa do cigarro entre meus lábios eram os únicos recursos que eu tinha para observar a cena magnífica que se desenhava sobre minha cama: aquela deusa de pele mulata, deitada e adormecida, nua e ainda suada, sobre os lençóis brancos completamente amarrotados e bagunçados; seus cabelos longos e crespos que caíam lindamente por seus ombros e braços magros, reforçando o contorno perfeito de seus traços; o substrato embranquecido de meu desejo ainda escorrendo sutilmente por entre suas pernas e o contorno irretocável de suas nádegas rígidas, volumosas e perfeitamente arredondadas. Pelo chão do quarto, nossas peças de roupa espalhadas denunciavam a pressa com que nos despimos, ávidos pelo contato direto, sem intermediários, de nossos corpos quentes, que exalavam o inconfundível aroma do intenso desejo mútuo. Havia meses que eu a imaginava em um momento como aquele, com aquela intimidade, com aquele calor. Sonhava acordado com o vai-e-vem de nossos quadris e com suas ancas apontando para o alto enquanto eu lhe possuía com força e tesão. E agora ela dormia ao meu lado, poucos minutos após a concretização de meus mais pervertidos desejos, que acabaram se provando muito, muito melhores do que em qualquer dia haviam sido no meu universo platônico. A maior prova disso era meu pau, ainda melado pela mistura de nossos líquidos, novamente entrando em estado de ereção pela simples e breve recordação do que acabara de acontecer entre aquelas quatro paredes. Mas foi quando me virei para apagar meu cigarro no cinzeiro lotado sobre o criado mudo que a noite prometeu ficar ainda melhor. Senti um movimento que não fui capaz de ver, apenas perceber, pois acontecera mais rápido do que minha capacidade de me virar novamente. Quando enfim consegui entender o que se passava, meu corpo inteiro já estava tomado pelo calor produzido por aquela boca carnuda e excitante engolindo meu membro já totalmente duro, desesperado pelo tesão proporcionado pelos movimentos longos e lentos realizados por aquela mulher divina. Seus olhos negros e devassos me olhavam fixamente enquanto sua cabeça se mexia em um ritmo que me fazia dançar sobre as estrelas de tanto prazer, me convidando para mais alguns minutos da experiência singular que era possuir aquele corpo, aquela mulher. Aquela deusa negra inesquecível...

Otávio Pottier.

Otávio é amigo Dellas e escreve com co-participação.

Surpreendente mais!


E lá veio ele, despertando minhas vontades e me deixando em muita delas. Demoramos para nos achar, e nos entendemos no nada que temos. E esse nada veio com mais verdade do que o mais definido sentido da amizade. E a cada mensagem não respondida, me agoniava a ideia de eu tão certa, ter perdido aquele que sempre foi meu amigo. A sua mão quente percorrendo o meu corpo é o que você vai deixar para eu ter saudade, é a nossa conversa, a nossa onda, o seu abraço, agora eu te conheci e quer saber você é bem melhor do que eu imaginava, mais atencioso, carinhoso, mais solícito, mais, mais, mais, distante... Tive tempo para viver isso, tive tempo para ter você e talvez por uma infantilidade absurda e o mau costume de não te enxergar direito, eu não deixei. Agora mesmo sem querer, você vai embora conquistar a sua história e crescer como deve ser. Pra você eu desejo o mundo e que ele te surpreenda, assim como você me surpreendeu.

Íris Pietro.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A gente se vê...

Eu estava ali, quieto, na minha. Sentado naquele banco velho de madeira, encarava meu telefone celular enquanto as crianças se divertiam, histéricas e aos berros, ao meu redor. Estava tão focado em meu aparelho que mal pude me lembrar de que, um dia, um daqueles gritos agudos e infantis havia sido meu.

Em uma das poucas oportunidades em que levantei meus olhos para reparar o mundo ao meu redor, percebi aqueles belos olhos azuis, tão inconfundíveis quanto inesquecíveis, se aproximando de mim, acompanhados do não menos impactante sorriso de dentes brancos e perfeitos, contornados pelos mais delicados, róseos e macios lábios que eu já tocara. Antes que pudesse constatar o tremor de minhas pernas e as batidas aceleradas de meu coração, meu telefone caiu de minha mão, denunciando à minha visitante que se aproximava o que se passava dentro de mim. Claro que, para ela, nada disso era preciso. Eu tinha certeza absoluta de que ela já havia lido tudo em meus olhos quando estes se encontraram com os seus.

- Oi - ela disse.

Por mais que tivesse vontade de não responder, de sair correndo dali enquanto conseguia manter as feridas fechadas, a certeza de que não havia mais tempo para isso me obrigou a dizer alguma coisa. Ou a tentar, pelo menos.

- Oi - ela repetiu, estendendo a duração de cada uma das vogais. Percebi, então, que não a havia respondido.

- Oi. Como vai?

Ela sorriu e não respondeu. Eu estava tão atormentado por seus lábios que sorriam, debochados, para mim e por seus olhos gentis e ao mesmo tempo provocativos, que nem percebi que ela tinha meu telefone em suas mãos. Só me dei conta disso quando ela desviou o olhar de mim para apontá-lo na direção do objeto sujo de areia que segurava à minha frente. Peguei-o, desconcertado, agradeci e enrubesci em seguida, ao constatar que ela fora capaz de ver minha foto de fundo de tela, onde havia um casal que se parecia muito conosco, mas era cerca de oito anos mais jovem.

Uma menina que deveria ter uns três anos interrompeu nossa tentativa de conversa, abraçando as pernas daquela mulher estonteante à minha frente e, chamando-a de mamãe, a pediu para irem embora.

- A gente se vê por aí... – ela disse, ainda com aquele sorriso no rosto, para logo depois se virar, pegar a criança no colo e desaparecer da mesma forma como apareceu: sem rodeios, sem aviso, sem o mínimo de piedade pelo mundo ao seu redor. Ela era seu próprio mundo, sempre fora. Agora, parecia que uma linda menininha o habitava também. E eu seria capaz de tudo para saber o que fazer para igualmente a ele pertencer.

- Sim, a gente se vê... Todos os dias... – e continuei a olhar meu telefone...

Otávio Pottier.

Otávio é amigo Dellas e escreve com co-participação.